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O Que Eu Faço por Coqui e Castanhas Assadas

Sentado na cadeira do escritório é fácil perder-me na melancolia do temporal de Outono.

Por entre os cliques e os claques que compõe a banda sonora de um dia de trabalho, dou por mim com 12 anos mais uma vez, sentado em frente em frente ao vendedor de castanhas assadas.

Tenho fome de castanhas, mas o meu pai decidiu que tinha finalmente chegado a altura de me castigar por ter chumbado no primeiro teste de matemática do ano. Como tal não tinha semanada.

Não estou sozinho, tenho os meus amigos – parceiros no crime – comigo. O Jonny está do outro lado da rua, a fingir que ata o sapato, pronto para agarrar e correr ao meu sinal. O Manel – a diversão está a chegar de bicicleta.

O plano está montado, e as rodas da engrenagem já estão a rodar. Se o meu pai descobre estou feito, muito provavelmente nunca mais vou ver a luz do dia. Mas… as castanhas valem bem a pena correr o risco.

O Manel faz a parte dele na perfeição, uma queda digna de um filme, se não o soubesse jurava que tinha partido o joelho a julgar apenas pela força dos seus gritos e pelas lágrimas que instantaneamente lhe escorreram pelo rosto.

Pelo canto do olho consegui ver o vendedor de castanhas a abandonar o seu carro para ajudar o Manel. Logo de seguida, o Jonny entra em ação. Sem qualquer sombra do que poderia ser hesitação, agarra em mão cheia atrás de mão cheia de castanhas para dentro da sua mochila da escola.

Satisfeito com o saque, ele desata a correr alertando o vendedor de que algo se passava. Este era o meu sinal. Calmamente levantei-me e preparei-me para o interceptar.

Enquanto ele acelerava na minha direção eu lutava para me manter calmo. Aí se o meu pai descobre.

Atrás do Jonny vinha o vendedor, a gritar para que alguém pare o gatuno. Parei e sorri. Num golpe rápido estiquei a perna e preguei uma rasteira perfeita ao vendedor.

Do chão ele olhou para mim com raiva estampada no rosto. Abriu a boca para falar mas eu já não estava lá para ouvir o que tinha para dizer, pois já ia a correr ao lado dos meus amigos, prontos para encontrar o local perfeito para desfrutar das deliciosas castanhas.

“Antunes, vou dizer ao teu pai! Estás em tantos sarilhos, rapaz dum raio! “

Eu podia ter morrido ali. Ele conhece o meu pai, e pior, ele vai-lhe contar! Estou oficialmente morto.

Três ruas acima decidimos parar para dividir as castanhas. Nenhum de nós tinha fome depois de sabermos que íamos ser apanhados. Os nossos pais são colegas de trabalho, todos eles vão ficar a saber que roubámos.

Nunca o caminho para minha casa foi tão longo.

Quando cheguei a casa, sentei-me à mesa e decidi beber o meu ultimo copo de leite com Coqui enquanto comia as castanhas. Se vou morrer, morro feliz!

De repente sinto uma mão no ombro acompanhado de uma voz familiar:

“Antunes! Nem vais acreditar no que encontrei hoje na mercearia ao pé de minha casa.”

Estava novamente no escritório, onde aparentemente tinha passado os últimos 10 minutos a reviver a razão pela qual apanhei o maior castigo da minha infância.

À minha frente estava o Jonny, todo ele sorrisos com uma lata de Coqui numa mão e castanhas assadas na outra.

“Que dizes de fazermos uma pausa para o lanche? O chefe saiu e acho que vai demorar pelo menos uns 30 minutos!”

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